Por que a gente fica adulto, afinal?

Aí a gente cresce e esquece. Esquece da leveza, da doçura, da ternura. Esquece dos sonhos, das pequenas gentilezas , das “palavrinhas mágicas”. A gente esquece de rezar antes de deitar. Esquece de perdoar e de se desculpar. A gente vira grande e esquece, né? Parece que a gente emburrece e não quer mais aprender. Afinal, a gente já sabe tudo. Não é mais importante fazer amigos e nem mantê-los, porque já temos muito. Ou escolhemos de quem nos aproximar, porque aprendemos a pela “capa” julgar. Se não temos o que queremos, não conseguimos ser feliz com o que já temos.

Foi-se o tempo de brincar com sucata. Agora, a gente brinca com sentimento. A gente brinca com gente. A gente aprende o significado do egoísmo, que era tão complexo entender, e tornamos dele nosso ser. A gente vê que os vilões dos quadrinhos são iguaizinhos, só que mais difíceis de reconhecer. A gente vê que se machucar é muito mais que o joelho no asfalto ralar. Merthiolate nem arde mais. A gente sente o coração sangrar, mas não vê sangue. O que é estranho.

A gente, sei lá, perde a esperança. Perde a espontaneidade. Perde a vaidade. Perde a vontade. A gente perde a vergonha, literalmente. A gente se perde e, como não é mais “pic-esconde”, nem nos preocupamos em nos achar. A gente sai correndo, mas não faz questão que ninguém venha atrás para nos “pegar”. Aliás, a brincadeira de “pega-pega” passa a ter outro significado. A gente também passa a se apegar em coisas superficiais.  A gente perde a alegria. A felicidade que sentíamos pelos momentos singelos quase que não existem. Passamos a querer sempre mais.

Viramos seres ingratos e mal educados. A gente perde a preciosidade da ingenuidade. Nos tornamos maliciosos, desconfiados. Não tomamos mais alguns valores como verdade. Perdemos, inclusive, a sensibilidade do que é verdade e do que é mentira. Não mentir era uma tarefa tão árdua e cobrada. Hoje, é como se ninguém tivesse aprendido lá atrás. “Sua mãe não te ensinou, não?”, dá vontade de falar. A gente perde uma essência tão pura. Que loucura! Só porque o tempo passou? Por quê será que a gente faz isso com a gente? Que medo. Ah, e falando em medo, tá aí uma coisa que eu acho que a gente não perde nunca. A gente continua a ter medo do escuro, da vida, da morte, de tudo. E, entre eles, o de deixar de ser uma eterna criança.

Queria eu poder congelar o tempo e aprender mais, e bem certinho para não esquecer jamais.

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