Uma carta de amor um pouco tardia

“Eu te amei. Sim, e como amei. Amei enlouquecidamente o seu bom humor matinal e a sua maldita (ou bendita) mania de ler em voz alta todas as notícias do jornal. Seu jeito estabanado na cozinha de deixar tudo para o ar, mas fazer a melhor panqueca com Nutela do planeta. Amei cada curva do seu corpo na minha camiseta quando se encostava no balcão e fazia careta, se erguendo nas pontas dos pés, deixando sutilmente aparecer a calcinha preta.  Como eu amei a calcinha preta. Amei o seu jeito doce e manhoso de pedir carinho. O seu jeito independente de me deixar falando sozinho. O charme do beicinho  – ah, o beicinho! – que expressava quando estava confusa, chateada e, algumas vezes, quando tinha feito cagada. Amei – de um modo estarrecedor –  o fato fazer terrorismo e alarde com coisas banais. De sempre pedir desculpas quando não tinha feito nada demais.

Amei a minha fronha manchada de maquiagem depois de uma noite bem dormida que tinha sido acompanhada de uma, duas ou três doses de tequila. De vinho branco, rosé ou tinto, de algumas (muitas) caipirinhas. Risadas escandalosas e alguns gemidos. Amei cada centímetro do seu corpo e dos seus cabelos longos em cima do meu rosto. Amei seu jeito encantador de brincar com as crianças, com os animais e até mesmo com os vegetais que deixava no prato, porque não aguentava mais. Amei, acho que mais do tudo, seu gosto terrível para filmes de domingo, porque eles sempre me mostravam o quanto era sensível. Seus olhos lacrimejados com histórias de drama deixavam meu jeito turrão na lama. O seu jeito meigo de tratar as pessoas – este eu amei como doido. O seu jeito irritante de sorrir para o porteiro, garçom, frentista, jardineiro e pedreiro, que me deixava com ciúmes até da minha sombra o dia inteiro. Os seus comentários bobos e a sua literatura e poesia, que fazia questão de fazer parte do nosso dia a dia. O seu jeito de se enrolar com os lençóis e me deixar passar frio a noite inteira. De sempre, sempre, trazer um exemplo otimista para encerrar qualquer briga rotineira. Seu jeito insuportável de me deixar ganhar, só por não querer discordar. De estar sempre de bem. De dizer sempre Amém. De falar de Deus no meio do jantar. De sempre me perguntar que cor de terno eu queria me casar – porque o branco, você acha brega demais. De ser boazinha com quem não merecia. De ser chatinha quando estava naqueles dias. De falar com voz de criança com os cachorros e até com os mendigos na rua, que já são BEM adultos. De  não falar palavrão. De não saber dizer não.

Eu amei muito cada detalhe seu. Amei suas pequenas atitudes amáveis em público. Sua mania de lembrar todas as datas comemorativas. De ser amiga da minha mãe – como se vocês se conhecessem desde a infância. Das surpresas em dias comuns, que me traziam um pouco de luz. Dos beijos curtinhos roubados. Dos abraços (muito) apertados. Das mãozinhas pra lá e pra cá na hora de falar, que faziam cair tudo ao seu lado.

Eu sei que você não imaginava ouvir isso, mas eu não só amei, como eu ainda amo e amarei para sempre cada pedacinho que você tem aí guardado. Até as manchas de nascença escondidas por alguns lados. Porque amor, meu bem, a gente pode tentar esquecer. Pode deixar enterrado por um tempo dentro da gente, mas não tem jeito, é um “bicho ruim” que não morre. Nunca. E daí, quando ele ressuscita, a gente se pergunta, “que merda foi essa que eu fiz da minha vida?”.

Calma, não se assuste. Eu não estou te pedindo pra voltar. É só um desabafo de quem te tem guardadinha em um canto especial e que não quer deixar você ir sem saber o quanto é essencial (e não digo só para mim, mas para o mundo). Fica tranquila que eu sei. Eu sei que quando você disse que eu não te merecia, não mentia. Sei que quando disse adeus, igual a você, eu jamais teria. Sei que mesmo querendo ficar, quando fosse, jamais voltaria. Sei que seria puro egoísmo te pedir pra ficar e ser pra sempre minha. Eu sei, e como sei, como foi viver depois da sua partida. Ouvindo por aí  o tamanho da besteira que eu fazia deixando você voar sozinha.

Doeu e dói até hoje, se você quer saber.  A sua doçura, a sua bondade, a sua pureza, a sua essência e a sua magia, não existem em ninguém. Ninguém. E olha que eu já procurei. Eu já tentei, eu já me apaixonei, já me entreguei. Já me perdi e já me encontrei. Não vou mentir. Eu fui feliz depois de você. Eu fui sim.  Mas teve começo meio e fim.  Porque eu sei que como fui com você, eu jamais serei.

Eu sei, não precisa me dizer. Alguém hoje já te fez rainha. Você tem alguém que te cuida, que te ama, que te acaricia. Eu ouvi de outras línguas. Eu já sei que eu perdi. Que ele dominou todos os continentes do War e afundou meu navio na batalha naval. Mas eu só queria que você lembrasse que o que a gente viveu foi sagrado por mais que, hoje, você já tenha esse sortudo aí do seu lado. E eu só queria te dizer obrigado. Obrigado por ter me deixado viver com você. Por ter sido minha. Por ter me deixado ser seu um dia. Por ter me ensinado a amar e ser feliz sem esforço. Por me dado um pouquinho do seu potinho de ouro. Por não ter me deixado esquecer seu cheiro. Por ter me feito ver o mundo de  outra forma – só por causa do seu sorriso. Por ter me feito um ser humano melhor, abençoado e mais digno. Por ter me ensinado a ler mais, a ser mais gentil, a ser mais legal. A ser menos frio. Por ter me ensinado o que, de fato, é amar.

Meu amor, me desculpa. Me perdoa por esta carta tardia. Mas eu espero que, se não nesta, em outras vidas, eu possa no seu abraço morar  e  nunca mais te deixar”.   

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